Beleza Americana
03/09/07
Hora e outra surge na mídia alguma reportagem referente à paixão entre americanos e suas armas, e os problemas que isso ocasiona. A Constituição americana, ao conferir o direito pessoal à auto-defesa, garantiu o uso relativamente livre de armas no país. Os críticos apontam com razão que em sociedades avançadas, ditas civilizadas, a sociedade conferiu à polícia o fardo de lidar com a violência, e além disso que o cidadão normal não tem o preparo necessário para utilizar as armas e de fato proteger-se. Da minha parte, concordo com essa visão da delegação ao Estado da proteção, afinal não seria esta a função primordial dele, que motivou seu surgimento?
O que não pode ser esquecido, porém, é o elemento que considero mais interessante do sistema político americano: a estrutura de pesos e contrapesos. Os criadores da estrutura política americana e que estavam por trás da revolução, chamados “founding fathers“, foram muito cuidadosos na formulação do aparato institucional do novo país. A democracia foi cuidadosamente pensada para ser resistente ao maior número possível de assaltos à sua existência: assim, legislativo, executivo e judiciário deveriam controlar-se mutuamente, impedindo qualquer um deles de tornar-se forte demais. E, caso tudo falhasse, o recurso último para salvar a democracia da tirania estaria no próprio povo, portanto este teria o dever de estar preparado para tal, ou pelo menos deveria poder se preparar. Essa razão, tão intrincada na criação do Estado americano, garante e provavelmente garantirá sempre um motivo para a posse livre de armas.
De qualquer forma, sempre causa curiosidade a relação entre pessoas comuns e armas. Estamos acostumados a associá-las à polícia e às forças armadas e a visão de cidadãos como nós com coleções de metralhadoras provoca a sensação, e uma lembrança, de que existe uma anarquia potencial no mundo, como se estas pessoas estivessem em constante prontidão. Bem, pela idéia dos pesos e contrapesos, elas de fato estão. Dois fotógrafos fizeram retratos da relação entre os gringos e seus brinquedinhos perigosos. Não são trabalhos espetaculares, mas de qualquer forma são interessantes e um pouco complementares. O livro de Kyle Cassidy, Armed America, compõe-se de retratos de famílias americanas junto a suas armas, cada foto acompanhada de um texto dos retratados explicando o porquê de as possuírem. As fotos são simples mas impressionam muito, pelo contraste de um objeto comum, armas, com os donos, tão diversos em suas expressões, suas roupas e suas casas:

A visão de mulheres com armas sempre me surpreende. Podem criticar se quiserem, mas a junção de uma mulher com um instrumento que tira a vida nunca será natural para mim, e as estatísticas estão aí para comprovar isso, dado que boa parte da violência com armas de fogo é realizada por homens. Não fosse este par mulher-arma tão interessante e contraditório, Amy Stein, uma fotógrafa “emergente” nos EUA não teria procurado realizar seu projeto Women and Guns.

Ainda que esse trabalho de Amy Stein não esteja no mesmo nível dos seus outros, algumas fotos são muito boas, esta de cima principalmente. O foco do trabalho é um pouco diferente daquele de Cassidy: enquanto naquele a preocupação era o contraste entre a arma e o cidadão comum, de modo que o ambiente escolhido inevitavelmente foi o lar dos retratados, isto é, a arma inserida exogenamente na vida, aqui realiza-se o contrário, sobrepõe-se a vida à arma, isto é, o uso desta é o foco e os personagens aparecem, com uma ou outra exceção, inseridos em situações no qual o uso dela é requerido, seja na caça, no treino ou no trabalho. O fato do sujeito ser uma mulher confere um interesse maior ao trabalho, pelo o que foi exposto antes, mas não é determinante na minha opinião. O resultado é menos chocante do que no trabalho de Cassidy, mas mais informativo pois nos fornece um ambiente mais natural para a relação homem-arma.