Point and Shoot

30/09/07

Reportagem interessante no RG: DPI. O fotógrafo Alex Majoli cobriu nos últimos anos as guerras no Congo e no Iraque, que lhe renderam os mais prestigiosos prêmios de jornalismo dos EUA: U.S. National Press Photographers Association’s Best of Photojournalism, Magazine Photographer of the Year Award e o U.S. Overseas Press Club’s Feature Photography Award. Incrivelmente, as fotos que lhe valeram tudo isso foram feitas com câmeras básicas, “point ‘n’ shoot, mais especificamente uma Olympus C-5050. Segundo ele, estas câmeras básicas servem bem para o trabalho jornalístico em regiões atribuladas porque são leves e possuem foco infinito, facilitando a tarefa de tirar fotos rapidamente em momentos de conflito. O tamanho diminuto as tornam menos agressivas e facilitam a aproximação com os moradores das regiões a serem documentadas, em geral em guerra e portando com uma população avessa a estrangeiros e especialmente repórteres.

O lado ruim das câmeras básicas é a imagem com pouco contraste, “flat”, portanto Majoli admite ter alterado um pouco os níveis de cor das fotos para conseguir algo mais próximo do preto obtido do filme. Além disso, possuem uma resposta baixa, isot é, demoram muito a fazer a foto após o botão ser pressionado. A reportagem toda é grande e detalha mais as técnicas usadas pelo fotógrafo para adaptar a câmera básica às necessidades do jornalismo de campo.

A lição mais uma vez é que o equipamento não é tão essencial assim em fotografia, o olhar continua soberano. Claro que um equipamento melhor facilita a vida, mas não cria as fotos boas: simplesmente você terá menos trabalho para tirá-las, se for capaz de fazê-lo. Recado bom para o pessoal que passa meses discutindo como a nova lente x vai melhorar a sua fotografia, etc.

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Alma dividida

23/09/07

Acabou de chegar meu primeiro livro de fotografias (não sobre fotografias): Divided Soul, de David Alan Harvey (Magnum), com mais de 100 (!) fotos dos 30 anos de trabalho de Harvey fotografando os povos latinoamericanos. O livro é muito bem feito, com fotos grandes e uma edição muito boa que deixa muito claro o estilo, o olhar próprio, deste grande fotógrafo. Harvey é um apaixonado confesso pelos povos latinos e suas trajetórias históricas de paixão e tragédia. Como as trajédias já foram mais do que documentadas, ele dedica-se a mostrar o resto: faz uma leitura do cotidiano dos latinos, impregnada de cores, sensualidade e paixão, sem entrar em considerações políticas. Pode-se criticá-lo talvez por romantizar um pouco a latinidade, mas acho que ele somente está preenchendo uma lacuna importante no registro fotográfico internacional. Claro que localmente existem fotógrafos registrando tanto as desgraças quanto as alegrias de todos os povos, mas isso já não ocorre com fotógrafos de renome e abrangência mundiais. Desgraças vendem mais e além disso as pessoas só param para pensar em outros povos quando algo terrível os acomete que acaba por gerar aquela sensação de proximidade (não que eu ache isso errado, já temos mesmo nossas próprias vidas e os problemas do próprio país para nos preocupar…).

As fotos (que podem ser vistas aqui) foram tiradas ao longo das décadas em projetos a priori independentes em sua maioria financiados pela National Geographic Society, para a Revista da National Geographic. São imagens de banqueiros e de touradas na Espanha, rituais de candomblé na Bahia, boxeadores em favelas brasileiras, diversas fotos de rua em Porto Rico, Cuba, México, Chile, Trinidad, Portugal. Um trabalho magnífico.

Preparando a comunhão – Salvador, Brasil.

 

Kind of Blue

11/09/07

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Por Thomas Adank.

Gostei das séries 2 e 4. Minimalista, gosto disso, um refresco à confusão (não só visual) de boa parte fotografia contemporânea. O fotógrafo é suíço, o que faz algum sentido.

Já faz uns meses que me deparei com a frase de David Levi Strauss sobre o Brasil, que coloquei na descrição do blog, abaixo do título. Desde então não saiu mais da minha cabeça, achei-a tão perfeita e astuta que cheguei a ficar com raiva…tive uma certa inveja, queria eu tê-la feito. Anyway, tal frase foi escrita em um ensaio de Strauss sobre o trabalho fotográfico de Miguel Rio Branco, da agência Magnum, sobre o Brasil. Natural das ilhas Canárias, atualmente morador do Rio de Janeiro, Rio Branco é um artista completo antes de ser fotográfo: dedica-se além da fotografia também ao cinema e à pintura, e credita sua visão distinta à influência conjunta de todas essas artes, principalmente da última. Preocupa-se principalmente em mostrar a situação dos miseráveis das capitais brasileiras, como Rio, Manaus, Salvador. Em entrevista antiga à Folha, muito elucidativa, ele resumiu sua temática, que…:

“…é a das marcas do tempo, com corpos marcados, lugares marcados. O tempo de exposição que deixa a própria marca dentro da imagem, é a própria questão da luz.”

Sendo filho de diplomata, Rio Branco mudava-se constantemente com seus pais, de país em país. Este fato acabou por influenciar decisivamente sua arte: diz nunca ter pertencido a um lugar, o que o fez sentir-se marginalizado e criou uma identificação e preocupação com a situação dos os miseráveis das grandes cidades, também marginalizados, mas em sua própria sociedade.

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LUZIANIA, Brasil — Miguel Rio Branco / Magnum Photos

Dada a frase de Levi Strauss sobre o trabalho de Rio Branco, a cor favorita deste não podia ser outra que o vermelho, como na foto acima.

Ainda que considere o trabalho de Rio Branco muito bonito e a motivação por trás louvável, minha preferência pessoal vai contra esta fotografia dos miseráveis e da dor, temas caros ao fotógrafo, por razões já explicadas em post anterior. Mas cada vez mais percebo que aqueles que vivem em sociedades em que dor, violência, miséria são recorrentes em geral não conseguem distanciar-se disso em seu trabalho. Não que eu não considere os temas válidos, mas pra mim a realidade já mostra tudo o que gostaria de saber, talvez porque eu procure no dia a dia saber qual é esta realidade, porque eu faço parte do 1% que lê jornal e se informa, whatever…o que importa é que procuro, no resto, incluindo artes em geral, uma forma de relaxar…escapar, que seja.

Beleza Americana

03/09/07

Hora e outra surge na mídia alguma reportagem referente à paixão entre americanos e suas armas, e os problemas que isso ocasiona. A Constituição americana, ao conferir o direito pessoal à auto-defesa, garantiu o uso relativamente livre de armas no país. Os críticos apontam com razão que em sociedades avançadas, ditas civilizadas, a sociedade conferiu à polícia o fardo de lidar com a violência, e além disso que o cidadão normal não tem o preparo necessário para utilizar as armas e de fato proteger-se. Da minha parte, concordo com essa visão da delegação ao Estado da proteção, afinal não seria esta a função primordial dele, que motivou seu surgimento?

O que não pode ser esquecido, porém, é o elemento que considero mais interessante do sistema político americano: a estrutura de pesos e contrapesos. Os criadores da estrutura política americana e que estavam por trás da revolução, chamados “founding fathers“, foram muito cuidadosos na formulação do aparato institucional do novo país. A democracia foi cuidadosamente pensada para ser resistente ao maior número possível de assaltos à sua existência: assim, legislativo, executivo e judiciário deveriam controlar-se mutuamente, impedindo qualquer um deles de tornar-se forte demais. E, caso tudo falhasse, o recurso último para salvar a democracia da tirania estaria no próprio povo, portanto este teria o dever de estar preparado para tal, ou pelo menos deveria poder se preparar. Essa razão, tão intrincada na criação do Estado americano, garante e provavelmente garantirá sempre um motivo para a posse livre de armas.

De qualquer forma, sempre causa curiosidade a relação entre pessoas comuns e armas. Estamos acostumados a associá-las à polícia e às forças armadas e a visão de cidadãos como nós com coleções de metralhadoras provoca a sensação, e uma lembrança, de que existe uma anarquia potencial no mundo, como se estas pessoas estivessem em constante prontidão. Bem, pela idéia dos pesos e contrapesos, elas de fato estão. Dois fotógrafos fizeram retratos da relação entre os gringos e seus brinquedinhos perigosos. Não são trabalhos espetaculares, mas de qualquer forma são interessantes e um pouco complementares. O livro de Kyle Cassidy, Armed America, compõe-se de retratos de famílias americanas junto a suas armas, cada foto acompanhada de um texto dos retratados explicando o porquê de as possuírem. As fotos são simples mas impressionam muito, pelo contraste de um objeto comum, armas, com os donos, tão diversos em suas expressões, suas roupas e suas casas:

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Eleonor e Drew com suas armas

A visão de mulheres com armas sempre me surpreende. Podem criticar se quiserem, mas a junção de uma mulher com um instrumento que tira a vida nunca será natural para mim, e as estatísticas estão aí para comprovar isso, dado que boa parte da violência com armas de fogo é realizada por homens. Não fosse este par mulher-arma tão interessante e contraditório, Amy Stein, uma fotógrafa “emergente” nos EUA não teria procurado realizar seu projeto Women and Guns.

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Foto por Amy Stein

Ainda que esse trabalho de Amy Stein não esteja no mesmo nível dos seus outros, algumas fotos são muito boas, esta de cima principalmente. O foco do trabalho é um pouco diferente daquele de Cassidy: enquanto naquele a preocupação era o contraste entre a arma e o cidadão comum, de modo que o ambiente escolhido inevitavelmente foi o lar dos retratados, isto é, a arma inserida exogenamente na vida, aqui realiza-se o contrário, sobrepõe-se a vida à arma, isto é, o uso desta é o foco e os personagens aparecem, com uma ou outra exceção, inseridos em situações no qual o uso dela é requerido, seja na caça, no treino ou no trabalho. O fato do sujeito ser uma mulher confere um interesse maior ao trabalho, pelo o que foi exposto antes, mas não é determinante na minha opinião. O resultado é menos chocante do que no trabalho de Cassidy, mas mais informativo pois nos fornece um ambiente mais natural para a relação homem-arma.

Harry Callahan

02/09/07

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Detroit – 1943

Estorninhos

31/08/07

Há uns meses atrás foi publicada no New York Times uma reportagem interessante sobre o fenômeno dos estorninhos na Europa, mais especificamente em Roma. Todos os anos, durante o outono e inverno, milhares destas aves realizam espetáculos no céu da cidade: como cardumes de peixes, elas se movem em uníssono em manobras fantásticas para se defender de predadores.

O fotógrafo Richard Barnes realizou uma série incrível de fotografias do “balé” destes pássaros, registrando por um lado a suavidade dos movimentos da multidão assim como o tom ameaçador que a nuvem negra transmite. Abaixo reproduzo uma das fotos:

Mais fotos podem ser encontradas aqui e aqui.