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Foto por Nicola Principato.

Relacionado ao tema que tratei em post anterior, eis que descubro o site de Nicola Principato. Ela começa assim:

“Some time ago I found myself searching the happiness again.”

Em seguida, descreve a história de Shui, Chinês sem-teto que vive em Londres. Shui teve no passado uma vida normal, com relativo sucesso, mas acabou perdendo tudo e tornou-se um morador das ruas; apesar disso, Nicola conta que ele mantém-se feliz, vivendo o momento, como que aceitando seu passado e sua condição atual. Impressionada com o “equilíbrio” encontrado pelo Chinês, ela parte em busca da solução para seu próprio problema. Nas palavras dela,

“So I set in mind to go and see the ones that our society considers the poorest, then the most unlucky, then the most miserable people of this world.”

E assim ela desembarca em Burkina Faso, na África. Para sua “surpresa”,

“So as the time passed we met people, made friends, visited the country, exchanged knowledge and had fun, and after a few weeks we realized that all these people were not at all the most unhappy in the world.”

Porém, o que seria a felicidade para estas pessoas tão necessitadas?

“…we found that the idea of happiness itself was substituted by a widespread and strong serenity, as descending from a sublte resignation joined with a little utopia for a better tomorrow. Serenity for what is owned, in place of anxiety for wanting the unpossible or the unneeded.

E assim ela realiza uma pequena série fotográfica que mostra o dia-a-dia destas pessoas, a “tal” serenidade, o levar a vida, que acaba trazendo alguma paz que muitas vezes nós nas sociedades mais abastadas não conseguimos atingir. Claro que a vida destas pessoas melhoraria se pudessem consumir mais, houvesse mais infraestrutura, etc, o que não implica na volta, isto é, que uma vida boa per se dependa destas condições.

Isso tudo é óbvio, claro, como atestam os consultórios cheios dos psicólogos… mas é sempre bom lembrar que a felicidade está nas pequenas coisas, que sobrevive mesmo que estejamos nas piores situações, que é menos relacionada ao conquistar e ter do que com o aceitar e ser; lembrar para que não confundamos a ida com a volta na relação entre riqueza e felicidade. São os pequenos prazeres, como disse Oscar Wilde.

Há uns meses atrás resolvi contribuir para os Médicos Sem Fronteiras. Confesso que inicialmente, ainda que simpatizante de ONGs em geral e admirador deste tipo de trabalho, minha ação foi motivada pelo desejo de um dia conseguir ser aceito nesta organização. Como dizem os locais, iria “amarradão” para qualquer lugar ajudar a quem fosse (ainda que provavelmente, sendo economista, acabaria em uma mesa em Paris realizando o necessário trabalho burocrático). Acho que daria um sentido mais palpável para minha vida e profissão. Bem, naquele momento eles não tinham mais vagas na minha área e a idéia foi momentaneamente esquecida por mim. Nas últimas semanas, porém, chegou um postal agradecendo a minha doação e, caramba, que trabalho de marketing fera os caras têm: tratava-se da foto (em P&B claro…) de uma mãe africana segurando o filho, ambos muito sorridentes e felizes, com um texto atrás agradecendo pela ação. Minha reação foi ficar feliz pacas na hora, seguido por uma certa decepção por cair tão rápido no marketing deles :)…mas no final a primeira reação prevaleceu. Acabou de chegar no correio um boleto pedindo a continuidade das doações e provavelmente manterei as contribuições.

Em termos fotográficos o que explica a efetividade do cartão postal, na minha opinião, é a quebra do padrão foto-tragédia quando se trata de documentar a situação de regiões miseráveis. Diga-me, quando somos apresentados a uma cena feliz de uma família africana? Nunca!! O postal realmente mostrava uma realidade que não chega até nós. O papel do MSF é fazer com que essa imagem torne-se a face real do continente, portanto é uma propaganda convincente dos objetivos da organização. Interessante comparar isso com as fotos tiradas por membros da agência de fotografia VII no Congo, em parceria com a própria MSF: uma amostra pode ser encontrada aqui. Reproduzo abaixo uma das fotos:

Ao olhar-se as fotos da exposição, percebe-se que nenhuma retrata uma situação de felicidade. Talvez o problema seja comigo mesmo, estou realmente de saco cheio de ver somente retratos da desgraça humana. Por isso que admiro muito o trabalho do fotógrafo David Alan Harvey, centrado nos povos latino-americanos. Apesar de retratar povos pobres, suas fotos geralmente procuram o lado bonito, alegre e lúdico destas populações, vale a pena conferir. Abaixo está uma foto tirada por ele em Cuba:

 

Entendo que seja necessário mostrar o sofrimento alheio para alertar sobre os abusos e motivar ações humanitárias no mundo, mas acho que se passa um pouco do limite.